O amor nas coisas simples

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Todo domingo é a mesma coisa. Acordo, vou do quarto ao banheiro, do banheiro à cozinha. Lá, separo o pó do café e enquanto a água ferve a mente viaja. O destino é sempre o mesmo. O que muda é o trajeto.

Lembro-me do primeiro de muitos sábados juntos. O primeiro de muitos sábados sem nada diferente, e nem por isso menos especial. No roteiro, um brigadeiro, um balde de pipoca e horas e horas de um DVD alugado. Nada de restaurantes badalados ou de festas grandiosas, apenas uma cumplicidade única e recíproca em aproveitar ao máximo um ao outro e não um lugar ou status. Ali, me recordo, percebi que o filme não importava. Nós nos bastávamos.

E como o tempo passa. Lembro também de quando nós, ainda adolescentes, perambulando pela cidade, descobrimos dentro de uma galeria improvável um enrolado de frango magnífico. Um enrolado, dentro de uma lanchonete, dentro de uma galeria, no centro da cidade. Não era um prato chique ou especial. E não era também pelos vinte centavos. Mas aquele simples enrolado foi por muito tempo só nosso. Como a costela de porco do deputado Frank, de House of Card. Onde, de novo, nos sentíamos juntos e iguais, unidos por um prazer recíproco em dividirmos um momento particular de prazer sincero, e que por mais normal que fosse à vista dos outros, representava um oásis de parceria no nosso tempo.

coisassimples

E como esse, foram vários. Em nossa viagem à Argentina tudo conspirou a favor. Lembro que nos divertimos intensamente, mas minha melhor memória de lá não é de um delicioso bife de chorizo ao som de uma apresentação de tango, mas poderia ter acontecido numa choupana qualquer. Deitados na cama do hotel, assistindo à TV local sem entender bulhufas do idioma nativo, começamos a criar um dialeto só nosso com palavras retiradas de momentos aleatórios do relacionamento. E nessa brincadeira infantil iniciou uma crise de riso mútua, daquelas de perder o fôlego, que me faz rir apenas de lembrar. Enquanto íamos repassando por fases da nossa história, mais engraçado ficava e naquele momento o tempo parou. O nosso entendimento pleno e o sorriso dela eram suficientes para mim. O nirvana da alegria a dois.

A água fervida me fez voltar à realidade. E a realidade, embora muito mais fria do que a dimensão dos sonhos acordados me recorda que de todos os anos de nossa história, os momentos mais marcantes não estavam numa viagem internacional, em um presente caro ou uma demonstração pública de afeto, mas sim onde nos despíamos de toda a convenção social e curtíamos único e exclusivamente um ao outro, sem se preocupar com o universo em volta. Tudo que de fato importou, partiu de dentro para fora, e isso, meu amigo, não há dinheiro que pague, pois é o que faz do relacionamento eterno, mesmo depois de terminado. É como disse Neruda “A vida esconde nos lugares mais simples sua grande beleza”. Quanto a isso, só me resta concordar e apreciar o meu café, que assim como o amor, sirva sempre quente, por favor.

 

P.S.: Se você é o detentor dos créditos de alguma das imagens utilizadas nesse post, entre em contato. Teremos o maior prazer em creditá-las à você.

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Estilo a dois

18 Comments

  1. Adoro os textos de vocês e o blog no geral. Quando o Paulo me falou sobre o blog eu vim correndo ler! E eu me sinto tão conectada a tudo. Eu namoro tem 9 anos, então sei como são importantes essas pequenas coisas, esses pequenos momentos… Também me identifiquei muito com o texto sobre os questionamentos de um relacionamento e quando sabemos que devemos ficar juntos.
    To sempre aqui vendo todas as atualizações!
    Beijos

    http://www.qualquercoisaetc.com

    • Oi Nanda. Que ótimo ler seu comentário.
      É sempre muito legal saber de leitores que se sintam próximos e tenham afinidade com o blog. Esse sempre foi o nosso objetivo.
      Obrigado pela presença constante. Tenho certeza que devemos ter muitos assuntos em comum, já que vc namora há tanto tempo também. É bom compartilhar, mas também ouvir. Se tiver alguma sugestão de tema a respeito, fala pra gente que iremos trocando figurinhas.
      Um beijo.

  2. É no silêncio do tempo que encontramos a plenitude do nosso ser, é neste momento onde o mundo parece suspenso que conseguimos sentir o que felicidade é de verdade, e mesmo que dure um segundo, será para sempre inesquecível.
    Texto lindo, muito vívido, me levou junto nas suas lembranças rsrs
    Bjoss

    • Que lindo, Fê! O dia que quiser botar pra fora seu lado poetisa / cronista, as portas do blog estarão abertas. Será uma baita colaboração. rsrs. Obrigado pelo carinho de sempre.
      Um beijo.

  3. Que lindo, profundo e verdadeiro!! Isso é raridade no mundo de hoje em em dia onde muitos não se atentam para as coisas mais simples e mais prazerosas, que é estar ao lado de quem se ama e te completa…pra vida inteira..Deus abençoe vcs sempre, sempre. Bjs.

    • Oi Jane! Muito obrigado pelo comentário afetuoso.
      Não que viver seja fácil, mas na maioria das vezes dificultamos as coisas mais simples,como valorizar e curtir ao máximo aquilo que nos faz bem. Como quem amamos.
      Um grande beijo e nos visite mais vezes.

  4. Lindíssimo texto.. Realmente o amor está presente nas coisas mais simples e acho que a luta juntos e a construção é realmente base para um relacionamento feliz.. Admiro a cumplicidade e o carinho de vcs.. Privilegiada por ter um casal como vcs como meus amigos! Um beijo grande

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