Crônica sobre um relacionamento perfeito

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– Eu e as meninas marcamos um encontro de casais para a próxima quinta. Já coloque na agenda.

Sair na quinta não era o que ele queria. Mas ele era o companheiro dela. Iria, não pela sua vontade, mas pela parceria. Mesmo que precisasse matar seu futebol pra isso.

– Tudo bem, amor.

– Veja se não vai com aquela sua calça azul de sempre. O Dani da Carol está sempre cheiroso e bem arrumado.

Ele não se vestia como o “Dani”. Gostava de suas roupas simples. Não se considerava desleixado e vestia aquilo que achava combinar com seu modo de ser. O mesmo que ela já conhecia desde que saíram pela primeira vez.

– Claro, amor. Vou com aquela calça nova que você me deu.

– Vá mesmo! Coitado de você se não fosse eu..

– É…

– É por quê? Não concorda?

– Concordo, amor.

– Ah bom.

Minutos em silêncio. Ele tenta.

– Tenho uma novidade. Sabe aquele curso de gastronomia que te falei? Passei hoje na porta e resolvi entrar pra saber dos detalhes. Estou querendo me inscrever.

– Essa de novo? Você não sabe fazer nem um ovo frito. E agora está com essa de querer ser Chef só porque viu na TV? Não inventa moda pra gastar nosso dinheiro.

– Mas… mas, era o meu dinheiro.

– Não existe essa de “meu dinheiro”, queridinho. Seu dinheiro é nosso dinheiro, esqueceu? Ou vou ter que pegar o contrato do casamento pra te lembrar?

– Mas é o meu sonho.

– Sonho? Essa bobagem de aprender a cozinhar? Vá ler receita na internet, se é isso que quer. Só não me peça para provar suas gororobas. Seu sonho é irmos pra Miami ao final do ano.

Ele respirou. Sabia que a batalha estava perdida. E lhe incomodava saber que o termo batalha não era apenas uma metáfora. A viagem, naturalmente, não era o sonho dele, mas ele cederia mais uma vez.

– Ah, só lembrando. Amanhã tenho tênis com a Flavinha. Devo chegar tarde. Não me espere.

– Mas a aula de tênis não termina às 20h30?

– Xiii, que ciúmes é esse? Deu pra isso agora, homem?

– Não, amor. Só estou perguntando.

– Então não me pergunte mais. E apague essa luz. Quero dormir.

No outro dia, depois de ouvir a Flavinha reclamando das implicâncias de seu namorado, ela falava:

– Ainda bem que não existe nada disso entre eu e meu lindo. Ele me ama e é impressionante como a gente sempre concorda em tudo. Quase não discutimos. É ótimo ter um relacionamento perfeito.

 

P.S.: Se você é o detentor dos créditos de alguma das imagens utilizadas nesse post, entre em contato. Teremos o maior prazer em creditá-las à você.

Feliz dia do eu amo você

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Feliz dia daquele momento perfeito.

Do me conta como foi o seu dia.

Do me espera pra ir à academia.

Do você linda de qualquer jeito!

 

Feliz dia do bar melhor que a boate.

Do coloca um filme pra gente.

Do me espera pra escovar o dente.

Do quem é aquela biscate?

 

Feliz dia do traz a toalha, por favor.

Da noite dormida em conchinha.

Das meias que pensei serem minhas.

Dos abraços cheios de amor.

 

Feliz dia do hoje eu vou cuidar de você.

Do estou com tanta saudade.

Do você não sabe a vontade.

E de tudo que eu quero fazer.

 

Feliz dia do brigadeiro com cobertor.

Da noite com vinho e fondue.

Das receitas sem queijo Brie.

Da companhia que vale mais que o sabor.

 

Feliz dia do amor fruto do improviso.

Do café servido na cama.

Do acordar todo cheio de manha.

Que me envolve com um largo sorriso.

 

Feliz dia do te pego pra ir ao cinema.

Do hoje você quem dirige.

Da espera dominical que aflige.

Da música que virou nosso tema.

 

Feliz dia do eu te amo demais.

Do meu anjo, meu dengo, minha lua.

Do meu beijo na esquina ou na rua.

Do namoro que não acaba jamais.

 

Feliz dia da soma de todo clichê.

Do presente sem hora marcada.

Do encontro de almas seladas.

Por mais um eu amo você!

Quem é você?

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Quem é você que acha que 18 é idade para se decidir alguma coisa, especialmente aquilo que fará pelos próximos 35 anos?

Quem é você que acha que ser bem sucedido é igual a ganhar mais do que você precisa e não fazer aquilo que realmente valoriza?

Quem é você que acha que uma vida ideal é se formar aos 20, se casar aos 30 e ter uma família margarina aos 40?

Quem é você que acha que uma mulher tem menos vontade de transar do que o homem e por isso não deve chamá-lo para subir no primeiro encontro?

Quem é você que acha que sexualidade é opção? Alguém alguma vez já te perguntou se você queria ser hétero?

Quem é você que acha que todo mundo quer ser pai? E quem é você para criticar aqueles que são, independente da idade?

Quem é você que acha que todo homem gosta de futebol e que toda mulher sonha em se casar?

Quem é você que acha que ser bonito é vestir um manequim 36 ou desfilar um tanquinho na praia?

Quem é você que acha que o deficiente físico merece mais compaixão do que o seu respeito? Já pensou que não há dificuldade mais limitante do que a moral (ou a falta dela)?

Quem é você que acha que ser chefe é falar mais alto, humilhar e oprimir, sem entender o que de fato seja liderar?

Quem é você que acha que uma mulher precisa casar virgem? E quem é você que acha que ela não tem o direito a isso se ela quiser?

Quem é você que acha conhecer alguém apenas pela roupa que veste, pela maneira que fala ou pela música que ouve?

Quem é você que acha que não se pode ser feliz sozinho e que ser solteiro é solidão, não opção?

Quem é você que acha que é preciso ser cristão para ter fé? E quem é você para julgar a forma que cada um tem de crer, mesmo que não creia em nada?

Quem é você que acha que alguma vida vale mais do que outra? E quem é você para achar que tem o direito de tirá-las?

Quem é você que acha que humanidade está ligado a raça, credo, sexo ou cultura? Alguém já definiu caráter por gênero?

Quem é você que acha que é preciso ser padrão para ser aceito?

Quem é você para julgar sem conhecer? Quem é você para definir o que eu devo fazer?

Afinal, quem é você?

 

Créditos da ilustração: Mel Gross Cartoons

A triste história de uma menina da moda

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Veja só você. Não é mais a menina de olhar encabulado por baixo de um cabelo encaracoladamente lindo que, anos mais tarde, mudaria para um liso escorrido por fazer mais o estilo padrão da moda na época.

O sorriso fácil também já não vem com a mesma generosidade de outrora. Hoje, anda escondido atrás de suas roupas de marcas, que marcam quase tudo e só mostram o que não importa, já que o sorriso era (esse sim) sua marca mais reveladora. E talvez a mais atraente.

Também já não é mais aquela menina que se perdia nos cantinhos do quintal com um livro na mão. E que depois que terminasse esse, fugiria com outro e mais um. Porque, ora, hoje não há mais tempo para livros. O pouco tempo livre que a “maturidade” lhe permite é gasto em musculação, dietas e corridas que não te levam a lugar algum, mas que você não deixa de percorrer, afinal, entre os olhos que te vê, mais vale uma manequim 36 do que 10 vezes esse número em livros na estante.

É triste, menina, mas por favor, me diga. Onde foi que a moda maquiou e escondeu toda aquela verdade que te fazia brilhar de um jeito diferente, e exatamente por isso, tão bonito de se ver? Onde foi que você abriu mão de sua personalidade e vendeu sua alma em busca da mais idiota perfeição pregada em comerciais de shampoo? Onde foi que você desistiu de ser única e foi atrás de um padrão que não padroniza corpos, mas que enjaula mentes?

Onde foi, menina, que você deixou de ser você e se transformou em um produto barato da sociedade do espetáculo e do descartável, com preço e prazo de validade?

 

Leia também: Talvez o amor seja talvez

 

Não chore, menina. Sei que a verdade nem sempre é tão sedutora quanto a mentira florida que eles insistem em te contar. Sei também que na sociedade em que você vive dizer o que se pensa está fora dos padrões, mas alguém tem que te fazer enxergar. Quebrar essa casca de superficialidade que você vestiu pensando agora estar arrasando, quando na verdade nunca esteve tão cafona. Simplesmente, porque não ser você é o mais alto nível da breguice. E se maquiar de aparências é perder a única coisa que de fato tem algum valor. Muito maior do que suas grifes caras é o quanto vale sua identidade, menina. Aquela que não é formada em esteira de produção e vendida em araras na liquidação. Aquela que não é marcada por modismos temporários e empurrada goela abaixo para a massa de consumo. Aquela que não busca um padrão industrializado, mas que admira o alternativo, o menos convencional e o único. É essa a moda que você precisa seguir, menina. Aquela que faz com que seu sorriso seja eterno na mente de alguém que te chame por amor, apenas por ser “diferentemente especial”. Seja diferente, menina. E se tiver que agradar a algum padrão ou a alguém, agrade a si própria, porque ser feliz consigo mesma jamais estará fora de moda.

Ele, ela e algumas descobertas

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Ele queria. Ela também, mas não podia. Não assim. Só tinham ficado duas vezes. Não estava certo. O que ele sairia falando pros meninos da rua?

– Só quero ver. Juro. Não vou tocar.

– Não.

– Você não confia em mim?

– Não.

– Sério?

– Não tenho porque confiar.

– Poxa. Então tá bom.

Sério? Já acabou? Não vai nem insistir mais? Frouxo. Ela cedeu. Dando linha.

– Ta bom. Só dessa vez.

Ele viu. Ficou maravilhado. Não era a primeira vez, mas saber que o drama havia funcionado era excitante. A arte da sedução e persuasão camuflada de inocência, mas cheia de atrevimento.

Não se aguentou e tentou tocar. Ela esperava por isso. Na verdade, esperou que ele tivesse esperado menos para tentar.

– Ei! Tira a mão! O combinado era só ver.

Não podia deixar. Pelo menos não tão facilmente. Teria dormido frustrada se ele não tentasse. Mas homens são previsíveis, havia escutado sua mãe contar à manicure, e esse não era diferente.

Papai já já estará chegando para me buscar. Por que ela faz tanto doce? Se como centroavante rompedor o ataque foi impedido, melhor passar ao meia clássico, cadenciado. Num passe certeiro, defino a partida e parto pro abraço. Caixa!

– Não farei nada que você não queira. Mas prometo que você também vai gostar.

Aquele papinho mole já a estava deixando impaciente. Será que ele não sabe que é a dificuldade que valoriza o passe? Se eu não quisesse, já teria cortado. Tente de novo, mané, seu pai já deve estar chegando.

Ele tentou. Agora, diferente. Colocou a mão dela entre suas duas. Em pouco tempo, uma permanecia imóvel, entre seus dedos, mas a outra subia, lenta e geograficamente precisa.

Aprendeu. Ela pensou.

Consegui. Ele comemorou.

Mais tarde, enquanto voltava pra casa no carro com seu pai, ele pensava em como a exploração havia evoluído poucos mas preciosos centímetros. Terreno conquistado. Da próxima, não admitiria recuar. Continuaria de onde havia parado, levando consigo um aprendizado importante: que assim como no futebol, no amor o jeito sempre leva vantagem sobre a força.

Já ela, deitada em sua cama ainda assimilava. Se o homem é prático como falam, depois de hoje tinha outra certeza: eles também adoram um teatro.

 

P.S.: Se você é o detentor dos créditos de alguma das imagens utilizadas nesse post, entre em contato. Teremos o maior prazer em creditá-las à você.

Carta ao filho que ainda vou ter

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Victor (seu nome quase me custou o amor de sua mãe)

Provavelmente, quando você tiver idade para ler essa carta, irá se perguntar por que eu não deixei um arquivo codificado na nuvem ou uma mensagem holográfica. É verdade, carta é velharia hoje em dia. Mas desculpe seu pai. Velhos hábitos nunca morrem – pergunte a sua mãe, ela tem uma caixa cheia delas. Reconheço que métodos mais modernos já existam, mas ainda não criaram nenhum tão capaz de demonstrar afeto. Talvez porque sentimento seja uma palavra de significado grande demais para caber em 140 caracteres.

E você sabe: se tem uma coisa que seu velho gosta é de conversar. Ou escrever. Não importa. Mas hoje será diferente. Juro! Não me demorarei por aqui mais do que o necessário. Nessas poucas linhas que traço, deixo aquilo que de mais fundamental esperaria de você.

Não, não vou começar com velhos sermões. Você é homem. Sei que sua personalidade será sempre aquilo que irá te definir e não vou influenciar você além do que meus próprios genes podem ter influenciado. Cresça e viva sua vida. Da maneira como quiser. Mas nunca seja arrogante a ponto de ignorar aquilo que pode lhe fazer melhor. Por isso, deixo aqui uma ou duas palavras que eu aprendi com o tempo, e que te ofereço como o que de melhor eu poderia lhe deixar.

1 – Você pode fazer absolutamente tudo em sua vida. Mas saiba que cada ação irá lhe cobrar igualmente uma consequência. Presenteie com uma flor e ganhe um convite a subir ao quarto dela. Agrida e será agredido. Com qual consequência você está disposto a viver?

2 – Um homem precisa de 2 coisas para ter sucesso profissional: conhecimento e confiança. Invista no primeiro e você terá êxito no segundo.

3 – Não coloque o sucesso profissional como o primeiro lugar de sua lista de prioridades. A felicidade plena poderá muito bem ser encontrada em outras caixas.

4 – Respeite. Todos e a cada um. Você, definitivamente, não é obrigado a gostar de todo mundo, mas é obrigado a tratar a todos com respeito e civilidade. É o mínimo que se espera de um bípede de polegar opositor vivendo em sociedade. Embora muitos ainda não consigam tal proeza.

5 – Ouça. Acredite, as pessoas adoram falar de si. Mas poucas têm paciência para ouvir a história do outro. Você aprenderá muito mais ouvindo e observando do que falando.

6 – Na dúvida, dê sapatos. Sempre funcionou comigo.

7 – Jamais perca a oportunidade de fazer um elogio. Sem puxa-saquismo ou interesse. Reconhecimento e gentileza nunca sairão de moda.

8 – As mulheres têm possessão por controle. Desconfio que seja fisiológico. Então a deixe deliberar sobre 80% das coisas sem importância pra você e interfira nos outros 20% que de fato importam. Ela continuará se achando dominante, você terá sua influência garantida e o relacionamento, acredite, estará equilibrado.

9 – Desconfie do cara que lhe disser que algo é impossível. Provavelmente é um fracassado que não deseja a alguém o sucesso onde ele falhou.

10 – Cuide de sua mãe. Jamais existirá no mundo um ser que lhe dê mais amor do que ela. Mães são seres luz. Deixe que ela te ilumine.

11 – Valorize seus amigos. Se a família é o alicerce, os amigos são o andaime que te ajudarão a chegar ao topo. E tenha sempre ciência que não é a frequência que fortalece a amizade. É a cumplicidade. Alguns dos maiores amigos de seu pai só são vistos anualmente.

12 – Não confie em coito interrompido. Não faça promessas que você não conseguirá cumprir.

13 – Seu nome é uma homenagem a uma divindade extraterrena. Não o envergonhe.

14 – Jamais confunda qualidade com quantidade. É um dos piores erros que um jovem pode cometer. E talvez o mais cometido.

15 – Cuidado ao julgar. Sempre que o fizer, se coloque no lugar do julgado e tente sentir como ele se sentiria com aquilo. Ao mesmo tempo, não se omita. Tenha opinião. A vida é chata por causa das verdades não ditas.

16 – Cobre-se. Sempre! Tentar ser uma pessoa melhor a cada novo dia deveria ser um exercício coletivo diário. Vivemos em uma época de inúmeras pressões (e deverá ser pior na sua juventude), então se acostume a elas e procure extrair de si sempre um pouquinho mais.

Faça o melhor da sua vida, meu filho. Busque sempre o equilíbrio e tenha bom senso, coisas que andam em falta nas prateleiras da vida moderna. Poderia falar mais alguma coisa sobre como abrir sutiãs e passar camisas sociais, mas creio que em sua época esses processos estarão mais facilitados. E se não tiver, confio em suas habilidades, que acredito serem congêneres.

Mal posso esperar para te ver.

Um beijo do pai.

24/09/2014